O mercado de videojogos já se encontra de tal modo assoberbado que, por vezes é complicado surgirem novas ideias, porém o mais recente título que tivemos acesso é, no mínimo, peculiar, que desperta imediatamente a atenção do jogador.
Desenvolvido pela Digitality Games, um estúdio português e publicado pela JanduSoft, o jogo apresenta uma ideia tão absurda quanto criativa, isto porque aborda um tema bastante surpreendente, ou seja, e se o filho do Drácula decidisse rejeitar a tradicional dieta de sangue dos vampiros para abraçar uma alimentação exclusivamente vegetariana?
INTRODUÇÃO
Voltaire: The Vegan Vampire é uma proposta, que para além da sua peculiaridade, revela-se particularmente interessante porque consegue alternar entre momentos de tranquilidade e períodos de ação relativamente intensa. Durante o dia, o jogador explora, recolhe recursos, prepara o terreno e cultiva alimentos e quando a noite chega, a lógica muda completamente, pois as colheitas passam a estar ameaçadas e é necessário defendê-las das criaturas enviadas pelo Drácula, o seu próprio Pai. Esta dualidade é, sem dúvida, o elemento que melhor define a experiência, pois o jogo não se limita a juntar agricultura e combate como duas atividades independentes, pelo contrário, procura fazer com que aquilo que fazemos durante o dia tenha consequências diretas sobre aquilo que acontece durante a noite.
O resultado é uma experiência jogável que combina agricultura, exploração, combate, defesa de território e elementos roguelite num universo de inspiração gótica, mas deliberadamente descontraído. Voltaire não é apenas um vampiro que decidiu ser diferente, mas sim um protagonista que transforma a sua rebeldia numa verdadeira filosofia de vida, utilizando sementes mágicas, colheitas e poderes sobrenaturais para sobreviver à oposição do próprio pai.

Durante o dia, o jogador explora,
recolhe recursos, prepara o terreno e cultiva alimentos...
NARRATIVA
A história de Voltaire: The Vegan Vampire assenta numa premissa simples, mas suficientemente divertida para sustentar toda a aventura. Voltaire é o filho mais novo de Drácula e, como seria de esperar, deveria seguir a tradição familiar, isto é alimentar-se de sangue e assumir o seu lugar entre as criaturas das trevas. O problema é que o jovem vampiro decide fazer precisamente o contrário, ou seja, em vez de morder pescoços, prefere cultivar vegetais e demonstrar que um vampiro pode sobreviver sem recorrer à habitual dieta sanguínea, contudo, essa decisão, naturalmente, não agrada ao seu pai. A partir desse momento, a narrativa transforma o conflito familiar numa espécie de confronto ideológico, pois o Drácula representa a tradição, o sangue e a velha maneira de fazer as coisas, enquanto Voltaire representa a mudança, a independência e uma abordagem muito mais, verde!
A presença de personagens como Frank e Stein contribui para reforçar o ambiente excêntrico e permite que a aventura mantenha um tom descontraído, mas o maior mérito está precisamente na capacidade de nunca levar demasiado a sério aquilo que está a contar. A ideia de um vampiro vegetariano poderia facilmente transformar-se numa simples piada repetida ao longo do jogo, mas apenas serve como ponto de partida para construção de um universo conscientemente absurdo. É uma história assumidamente cómica, que não procura apresentar grandes momentos dramáticos, nem tão pouco procura desenvolver uma mitologia vampírica particularmente complexa, sendo o seu principal objetivo divertir e criar uma justificação narrativa para as diferentes mecânicas.
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| É uma história assumidamente cómica, que não procura apresentar grandes momentos dramáticos... |
JOGABILIDADE
É na jogabilidade que Voltaire: The Vegan Vampire encontra a sua verdadeira essência e talvez a sua maior virtude. O conceito do título, tal como referido acima, é dividido em dois grandes momentos, o dia e a noite. Durante o dia, o jogador necessita de realizar várias tarefas, como exploração do mapa, recolha de recursos e diverso tipo de agricultura, pois é necessário encontrar sementes, preparar terrenos, plantar, cuidar das culturas e recolher alimentos capazes de manter a personagem alimentada e suficientemente preparada para os desafios seguintes. Isto quer dizer que a agricultura não é, portanto, um simples passatempo secundário e acessório, mas sim uma parte fundamental da progressão. Os alimentos cultivados permitem alimentar Voltaire, enquanto determinadas plantas e recursos assumem também importância estratégica durante os confrontos, criando uma ligação interessante entre gestão de recursos e combate.
Quando a noite cai, o processo do jogo transforma-se radicalmente, pois o seu Pai, Drácula, envia criaturas para destruir as colheitas e impedir o progresso do filho, obrigando o jogador a defender a propriedade enquanto enfrenta sucessivas vagas de inimigos. É aqui que entram os poderes vampíricos, os ataques, as habilidades especiais, as plantas defensivas e outros recursos que permitem transformar a própria quinta numa espécie de campo de batalha.
Este conceito confere ao jogo uma dinâmica, verdadeiramente, interessante, uma vez que a combinação entre agricultura e defesa funciona especialmente bem nas primeiras horas porque cria uma cadeia de consequências muito clara, ou seja, é necessário preparar a quinta durante o dia para estar suficientemente protegido durante a noite. Uma má gestão dos recursos pode tornar a defesa mais complicada, enquanto uma boa preparação permite enfrentar as ameaças com maior segurança. Outro aspeto importante é a possibilidade de jogar com dois jogadores, uma característica que combina particularmente bem com a filosofia do título, uma vez que dividir tarefas entre agricultura, exploração e combate pode tornar a experiência mais caótica, mas também muito mais divertida.
Por outro lado, e talvez o aspeto menos positivo da jogabilidade, a recolha de determinados recursos pode tornar-se repetitiva, principalmente quando o jogador precisa de repetir tarefas semelhantes para conseguir avançar, por exemplo na agricultura, que embora inicialmente se afigure interessante, pode adquirir um caráter algo rotineiro quando as mecânicas já foram completamente assimiladas. O mesmo pode se referido do combate, porque existe também alguma sensação de repetição nos confrontos, especialmente quando determinadas vagas de inimigos deixam de constituir uma ameaça significativa.

Quando a noite cai, o processo do
jogo transforma-se radicalmente, pois o seu Pai, Drácula, envia criaturas para
destruir as colheitas...
LONGEVIDADE
Voltaire: The Vegan Vampire é uma daqueles títulos que não dependem exclusivamente da duração da campanha principal, isto porque a sua estrutura incentiva a repetição sem obrigar o jogador a encarar cada nova tentativa como uma simples cópia da anterior. O modelo roguelite implementado é essencial, pois cada tentativa permite adquirir conhecimento, experimentar diferentes estratégias, desbloquear capacidades e perceber melhor como funcionam os diferentes sistemas, abonando a favor da repetibilidade e, aumentando exponencialmente a longevidade do jogo.
Por outro lado, tal como mencionado anteriormente, existe ainda a componente cooperativa para dois jogadores, que pode aumenta significativamente a longevidade e a diversão, para quem partilhar a experiência. Ainda assim, temos que ter em mente que o estilo roguelite é baseado na repetição, sendo uma característica comum aos inúmeros jogos do mesmo segmento, portanto, a longevidade depende sempre bastante da relação do jogador com o género. Por isso, quem apreciar experiências baseadas numa evolução gradual, com gestão de recursos e repetição de ciclos encontrará razões suficientes para regressar. Quem procura uma aventura linear com progressão constante e pouca repetição, poderá sentir algum desgaste mais rapidamente.

Ainda assim, temos que ter em mente que o estilo roguelite
é baseado na repetição, sendo uma característica comum aos inúmeros jogos do
mesmo segmento...
GRAFISMO E SONOPLASTIA
A direção artística demonstra coerência, apresentando um uma mistura muito curiosa entre o macabro e o adorável, isto porque Voltaire: The Vegan Vampire adota uma estética 2D, numa espécie de arte desenhada à mão, com uma forte personalidade visual. Os vampiros, monstros, ambientes e plantas apresentam um design bem característico que consegue transmitir uma atmosfera gótica sem abandonar o sentido de humor, onde o universo de Transilvânia é reconhecível, mas está constantemente sujeito à irreverência do conceito. Existem criaturas que deveriam ser assustadoras, mas que muitas vezes possuem características caricaturais simpáticas e engraçadas, existem ambientes sombrios preenchidos por elementos coloridos e existe um protagonista vampiro que, em vez de se alimentar de sangue, passa boa parte do tempo preocupado com legumes e plantações.
Naturalmente, não é um jogo concebido para demonstrar o potencial técnico máximo da PlayStation 5 e nem existem ambientes tridimensionais gigantescos, com efeitos de iluminação cinematográfica ou modelos extremamente detalhados. O objetivo artístico é outro, e dentro desse objetivo o jogo consegue destacar-se, sendo um daqueles casos em que a direção artística é mais importante do que a quantidade de tecnologia utilizada.
A componente sonora contribui para o enriquecimento da experiência e apesar de não ser exuberante, cumpre perfeitamente o seu propósito. A banda sonora alterna entre momentos mais tranquilos durante a exploração e agricultura, aumentando de intensidade durante os combates e confrontos contra inimigos.
Durante o dia, a música contribui para uma sensação relativamente relaxada, adequada às tarefas agrícolas e à exploração, mas à noite, a sonoplastia assume uma dimensão mais dinâmica, acompanhando o aumento da ameaça. A utilização do som para separar os períodos diurno e noturno é particularmente eficaz porque reforça a sensação de mudança de ritmo, todavia, a ausência ou utilização bastante limitada de vozes também faz com que grande parte da personalidade das personagens dependa exclusivamente do texto, da animação e da própria direção artística, sendo um fator demasiado limitador.

A direção artística demonstra
coerência, apresentando um uma mistura muito curiosa entre o macabro e o
adorável...
CONCLUSÃO
Voltaire: The Vegan Vampire consegue transformar uma ideia ligeiramente absurda e ridícula numa interessante experiência, que mistura agricultura, combate, defesa e roguelite.
A excelente direção artística, o humor e a relação entre as atividades diurnas e noturnas conferem-lhe uma identidade muito própria e apesar de alguma repetição e de uma progressão que pode reduzir a tensão com o tempo, é uma aventura independente criativa, divertida e recomendável para quem aprecia experiências fora do convencional.
Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas



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