JOGOS: Ground Zero Hero | Análise

26.8.26

Ground Zero Hero foi o mais recente jogo que nos chegou à redação, na sua versão de Nintendo Switch, apesar de estar igualmente disponível para as plataformas PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC.

Desenvolvido por Rowan Edmondson, um criador independente de videojogos, com mais de 15 anos de experiência na indústria atuando como solo developer e publicado pela Acclaim, o título coloca o jogador no papel de um sobrevivente num deserto pós-apocalíptico radioativo repleto de criaturas mutantes.

INTRODUÇÃO

Há jogos que procuram reinventar um género e outros que, assumidamente, preferem utilizar uma fórmula já conhecida, acrescentar-lhe uma identidade própria e concentrar todos os seus esforços naquilo que realmente importa, ou seja, proporcionar diversão imediata. Ground Zero Hero, insere-se claramente na segunda opção e apresenta-se como uma experiência de ação roguelite num formato bullet hell, centrada em torno de hordas de inimigos, com partidas sucessivas em que cada tentativa procura tornar o protagonista mais poderoso.

O jogador é colocado numa espécie de laboratório de mutações, onde eliminar criaturas significa recolher recursos, absorver os seus restos e transformar o protagonista numa aberração progressivamente mais poderosa. A própria filosofia do jogo pode ser resumida em três palavras: absorver, mutar e evoluir.

É uma proposta que não esconde as suas inspirações e aproxima-se claramente dos bullet hell, survivors e roguelites de ação que existem, atualmente no mercado, mas tenta distinguir-se através de um sentido de humor deliberadamente absurdo, de um estilo visual caricatural e, sobretudo, de um sistema de evolução que transforma cada partida numa verdadeira experiência.

NARRATIVA

A história em Ground Zero Hero é claramente acessória e funciona essencialmente como uma moldura para justificar aquilo que realmente interessa, isto é, combater hordas, recolher recursos e sofrer mutações. O jogador é lançado num deserto radioativo, povoado por criaturas mutantes e rapidamente percebe que o objetivo não é descobrir uma elaborada conspiração, salvar a humanidade ou desvendar os mistérios de uma civilização perdida, mas sim, tornar-se mais forte.

O jogo assume desde o início uma atitude descontraída, irreverente e deliberadamente disparatada, uma vez que o mundo pós-apocalíptico não é apresentado como um lugar exclusivamente sombrio e deprimente, mas sim como um palco para situações absurdas, criaturas grotescas e uma progressão que transforma o protagonista numa entidade cada vez mais estranha. E, em certa parte, essa opção combina bem com o a globalidade da experiência, pois, ao invés de tentar construir um universo dramático, o título aposta num humor negro e caótico que procura acompanhar a loucura da própria ação.

A questão é que esta opção também limita a capacidade do jogo para criar uma ligação emocional com quem está a jogar, porque não existe uma narrativa suficientemente desenvolvida para fazer com que o jogador queira descobrir o que aconteceu antes dos acontecimentos da trama ou qual será o destino do protagonista. Todavia, num jogo deste género, uma história elaborada poderia até entrar em conflito com a natureza rápida e repetitiva da experiência, porém, alguns elementos narrativos adicionais, como personagens secundárias, pequenas histórias contextualizadoras ou acontecimentos especiais, poderiam ter dado uma maior personalidade ao universo.

...combater hordas, recolher recursos e sofrer mutações.

JOGABILIDADE

É na jogabilidade que Ground Zero Hero atinge todo o seu potencial e a sua verdadeira razão de existir. A fórmula não é inovadora, alías é sobejamente conhecida pelos amantes dos videojogos, uma vez que existem diversos outros títulos semelhantes, mudando apenas a temática do universo onde se desenrola a ação. O jogador controla uma personagem, num cenário com visão top-down (de cima para baixo), movimentando-se entre enormes grupos de inimigos, evitando ataques, recolhendo recursos e aumentando progressivamente o poder disponível durante cada run. Até aqui nada de novo e surpreendente, certo.

A singularidade está no sistema de mutações, uma vez que cada inimigo eliminado pode contribuir para a evolução do protagonista, permitindo acumular diferentes capacidades e combinar efeitos. A intenção é que cada partida produza uma construção diferente, criando combinações que alteram significativamente a forma como o jogador enfrenta as hordas. São incontáveis as melhorias ou habilidades que podem ser aplicadas à personagem e é essa variedade que torna Ground Zero Hero, ligeiramente, distinto da concorrência. Uma habilidade pode aumentar o dano, outra pode alterar a área de efeito, uma terceira pode favorecer a velocidade ou a sobrevivência, sendo que aos poucos, o jogador começa a construir uma personagem que deixa de ser apenas um sobrevivente e passa a comportar-se como uma verdadeira máquina de destruição.

O combate, como não poderia deixar de ser, é intenso e frenético, com as hordas a tornam-se progressivamente maiores, os ataques a multiplicarem-se e a atenção do jogador passa a estar dividida entre posicionamento, recolha de recursos, inimigos prioritários e construção da personagem. É precisamente neste caos que o jogo encontra o seu ritmo, pois não é necessário dominar uma quantidade absurda de comandos, uma vez que o desafio reside na leitura do espaço, no posicionamento e nas decisões que deverão ser tomadas durante a progressão. Assim, mesmo quem não possui grande experiência com roguelites consegue compreender rapidamente o funcionamento do sistema.

A singularidade está no sistema de mutações, uma vez que cada inimigo eliminado pode contribuir para a evolução do protagonista...

LONGEVIDADE

O termo longevidade depende, essencialmente, da relação do jogador com o título, isto porque os roguelites, amiudamente, conseguem levantar uma questão na mente do jogador, a eterna "só mais uma partida?". Se a ideia de repetir partidas, experimentar novas combinações e procurar melhorar progressivamente constitui uma proposta apelativa, então existe em Ground Zero Hero conteúdo suficiente para justificar muitas horas. Contudo, se, pelo contrário, o jogador necessita de uma campanha linear e de uma narrativa com princípio, meio e fim, a experiência poderá parecer, demasiado limitada.

O jogo disponibiliza múltiplos biomas, mais de 80 melhorias, mais de 60 inimigos e 60 desafios, além de um Endless Mode destinado aos jogadores que pretendem levar as suas construções ao limite. A aleatoriedade também é um fator que contribui para o aumento da longevidade, uma vez que as condições, combinações e escolhas podem variar entre partidas, existindo um incentivo natural para tentar novamente mais uma run. No inverso da medalha, depois de o jogador compreender as principais possibilidades do sistema, algumas runs podem começar a transmitir uma sensação de familiaridade e até repetibilidade, porém, essa é uma limitação natural da fórmula, que, obviamente, Ground Zero Hero não está imune a ela.

...roguelites, amiudamente, conseguem (quase) sempre fazer levantar uma questão na mente do jogador, a eterna "só mais uma partida?"

GRAFISMO E SONOPLASTIA

A nível gráfico, Ground Zero Hero aposta numa estética 2D colorida, caricatural e deliberadamente exagerada, onde o seu universo mistura o ambiente pós-apocalíptico com criaturas grotescas e um sentido de humor visual que evita que o cenário se torne demasiado pesado. As mutações alteram absurdamente o protagonista, tornando evidente a evolução que está a acontecer durante a partida e isso combina perfeitamente com a personalidade do título.

Os ambientes pós-apocalípticos, apesar de não serem os mais diversificados, são interessantes, apostando recorrentemente em elementos de estética do deserto, da terra devastada e das paisagens radioativas. É, conquanto, um jogo visualmente coerente, divertido e com personalidade, que chega a impressionar quando apresenta uma quantidade enorme de elementos simultaneamente no ecrã da consola.

A componente sonora segue uma filosofia semelhante à do grafismo, isto porque não pretende impressionar pela grandiosidade, mas, sim, acompanhar eficazmente a ação. Os efeitos sonoros têm como principal função reforçar o impacto dos combates, das eliminações, das mutações e das diferentes situações que acontecem durante cada partida.

Num jogo em que o ecrã pode estar constantemente preenchido por inimigos, projéteis, efeitos e explosões, uma banda sonora excessivamente dominante poderia acabar por causar alguma estranheza. Ground Zero Hero opta, e bem, por manter um áudio relativamente controlado, permitindo que os acontecimentos do combate mantenham o devido protagonismo.

Ground Zero Hero aposta numa estética 2D colorida, caricatural e deliberadamente exagerada, onde o seu universo mistura o ambiente pós-apocalíptico com criaturas grotescas...

CONCLUSÃO

Ground Zero Hero propõe objetivo direto e conciso, ou seja, colocar o jogador perante hordas de criaturas mutantes, permitir-lhe absorver recursos, desenvolver mutações cada vez mais absurdas e transformar cada run numa oportunidade para construir algo mais poderoso.

E essa simplicidade é simultaneamente uma das suas maiores virtudes e uma das suas maiores limitações, isto porque a jogabilidade é rápida, acessível e suficientemente viciante para justificar o clássico "só mais uma partida". Por outro lado, a fórmula do jogo não apresenta uma inovação particularmente significativa, num mercado já saturado de deste tipo de títulos, levantando a eterna questão da repetibilidade.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas


 
 

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