De volta aos filmes e séries e desta vez a escolha recaiu em Stranger Things, uma série mundialmente idolatrada e com uma enorme legião de fãs, que teve a sua estreia no ano de 2016 e só foi dada como concluída no final de 2025
INTRODUÇÃO
Desde a sua aparição, Stranger Things afirmou-se rapidamente como um fenómeno cultural que suplantou o estatuto de uma simples série televisiva. Concebida pelos irmãos Duffer, a produção da Netflix conseguiu articular nostalgia, ficção científica, terror e drama juvenil numa fórmula bastante acessível, mas surpreendentemente sofisticada.
O seu impacto foi de tal ordem elevado que não se limitou à audiência, uma vez que influenciou outras áreas como a moda, a música, as grandes marcas de gastronomia e até a forma como o streaming passou a apostar mais em narrativas de grande escala, ao invés de filmes. Mais do que um produto de entretenimento, Stranger Things tornou-se um retrato emocional de várias gerações.
RESUMO
A narrativa desenrola-se na pequena cidade fictícia de Hawkins, Indiana, durante a década de 1980. O desaparecimento misterioso do jovem Will Byers (Noah Schnapp de À Espera de Anya ou Abe) desencadeia uma sucessão de acontecimentos sobrenaturais que expõem a existência de uma dimensão paralela conhecida como “Upside Down”.
Ao longo das cinco temporadas, acompanhamos um grupo de adolescentes – Mike (Finn Wolfhard de It ou Caça-Fantasmas: O Legado), Dustin (Gaten Matarazzo de Honor Society ou Lego Star Wars: Rebuild the Galaxy), Lucas (Caleb McLaughlin de Shooting Stars ou American Dream: The 21 Savage Story), Max (Sadie Sink de A Baleia ou Rua do Medo – Parte 2: 1978) e Eleven (Millie Bobby Brown de Enola Holmes ou Damsel) - que, entre jogos de Dungeons & Dragons e conflitos pessoais, enfrentam ameaças que ultrapassam a compreensão humana.
Paralelamente, adultos como Joyce Byers (Winona Ryder de Alien O Regresso ou Beetlejuice Beetlejuice) e o chefe Jim Hopper (David Harbour de Viúva Negra ou Thunderbolts) acrescentam densidade emocional e realismo à história, equilibrando o tom juvenil com dramas profundamente humanos. A série evolui progressivamente de um mistério contido para uma narrativa épica, marcada por perigos crescentes e perdas significativas.
A série conta ainda com a participação de atores como Natalia Dyer (Yes, God, Yes), Charlie Heaton (Billy Knight), Joe Keery (Free Guy: Herói Improvável), nos principais papéis.
OPINIÃO
Apesar de toda a popularidade granjeada, Stranger Things não é uma série para todos! Pessoalmente, a série destaca-se também pela construção das personagens, que evitam arquétipos simplistas e evoluem de forma coerente ao longo de todas as temporadas. Foi um prazer enorme assistir ao crescimento, progresso e sobretudo, desenvolvimento de todos as personalidades, especialmente dos mais jovens. Por exemplo, Eleven, em particular, representa um dos retratos mais interessantes da televisão contemporânea, uma vez que aborda a infância traumatizada e a procura de identidade, algo muito recorrente no nosso quotidiano.
Com clara inspiração e referência em trabalhos meritosos de outros criadores, como John Carpenter, Steven Spielberg e até mesmo Stephen King, Stranger Things constrói uma identidade bem particular e assertivamente estruturada, não se limitando a imitar ou copiar outros enormes sucessos cinematográficos.
Contudo, nem tudo é um mar de rosas! Em determinadas temporadas, fiquei com a sensação que certos conteúdos foram demasiado explorados, numa tentativa clara de esticar o assunto, aumentando a longevidade e sem grande relevo para a narrativa. Aliás, a longevidade de Stranger Things levanta uma questão pertinente. Até que ponto uma narrativa concebida com forte componente nostálgica consegue sustentar-se sem se tornar repetitiva? A série demonstrou consciência desse risco ao permitir que os seus personagens crescessem, literal e narrativamente, acompanhando o passar do tempo. Sem dúvida um ponto tremendamente positivo. Essa decisão confere autenticidade, mas também impõe desafios, sobretudo na manutenção da coerência entre a inocência inicial e a progressiva escuridão da história. Apesar de alguns sinais de desgaste, a série conseguiu preservar relevância cultural e emocional, algo raro num panorama televisivo saturado.
Ainda assim, no global, o equilíbrio entre ação, emoção, tensão e até mesmo o humor, mantêm-se suficientemente sólidos, desde o primeiro episódio até ao derradeiro, sustentando o envolvimento do espectador.
CONCLUSÃO
Em suma, Stranger Things é, acima de tudo, uma obra sobre amizade, perda e amadurecimento, disfarçada de ficção científica sobrenatural. O seu sucesso não se explica apenas pelo apelo nostálgico ou pelos elementos fantásticos, mas pela empatia que constrói com o espectador. Mesmo com imperfeições estruturais, a série permanece como um dos exemplos mais marcantes da televisão do século XXI, provando que o entretenimento popular pode, sim, ser narrativamente ambicioso e emocionalmente profundo.


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