De volta aos filmes desta vez a escolha recaiu em Anjo da Sorte, uma comédia atípica sobre dinheiro, privilégio e a ilusão de felicidade.
INTRODUÇÃO
Em estreia na realização de uma longa-metragem, Aziz Ansari criou (e participou como ator) uma comédia divertida sobre troca de identidades, com uma premissa simples, ou seja, um anjo troca a vida de um homem pobre com a de um milionário. O resultado é um filme que oscila entre a sátira social, a fábula moral e a comédia existencial. Nem sempre encontra o equilíbrio perfeito entre estes registos, mas raramente deixa de ser interessante.
No fundo, procura ser, acima de tudo, um comentário mordaz ao presente, nomeadamente ao custo de vida, à precariedade, ao trabalho instável, à desigualdade económica e ao modo como a sociedade atual vende a ideia de que a felicidade é apenas uma questão de esforço individual.
RESUMO
O projecto reunia um grupo de atores interessantes e conceituados, mas simultaneamente invulgar para uma comédia contemporânea, saltando à vista nomes como Keanu Reeves, Seth Rogen, Keke Palmer, Sandra Oh e o próprio Aziz Ansari.
A narrativa acompanha Arj, interpretado por Aziz Ansari (Parks and Recreation), um homem em permanente estado de sobrevivência. Trabalha em empregos temporários, faz pequenos serviços, vive no carro e tenta, sem grande sucesso, manter alguma estabilidade emocional e financeira. Arj representa uma figura cada vez mais comum no mundo atual, ou seja, alguém que trabalha constantemente, mas que mesmo assim, nunca consegue evolução, vivendo num ciclo de dívida, precariedade e desgaste.
É então que surge Gabriel (Keanu Reeves de Matrix ou John Wick), um anjo, que ao contrário da imagem tradicional do anjo sábio e omnipotente, Gabriel é ingénuo, incompetente e excessivamente confiante. Ele está convencido que o sofrimento de Arj não resulta da falta de dinheiro, mas sim de uma visão errada da vida. Para provar o seu ponto de vista, decide trocar a vida de Arj com a de Jeff (Seth Rogen de Alta Pedrada ou Isto é o Fim!), um empresário rico, egocêntrico e desligado da realidade.
A partir desse momento, o filme desenvolve a sua premissa principal. Arj passa a viver a vida de Jeff numa mansão, carros de luxo, estabilidade económica, conforto e estatuto. Jeff, pelo contrário, vê-se subitamente confrontado com a pobreza, o desemprego, a humilhação e a dificuldade de sobreviver sem dinheiro. No entanto, a experiência não corre como Gabriel imaginava. Em vez de perceber que “o dinheiro não traz felicidade”, Arj descobre algo muito mais desconfortável, ou seja, a riqueza não resolve todos os problemas, mas resolve quase todos os problemas imediatos. Dormir descansado, pagar contas, comer bem, ter tempo livre e segurança, muda radicalmente a forma como uma pessoa encara a vida.
Enquanto isso, Jeff experimenta pela primeira vez aquilo que antes apenas observava à distância, o desespero de perder o emprego, a vergonha de não ter dinheiro, a dificuldade de conseguir ajuda e a sensação de invisibilidade social. Paralelamente, Gabriel perde os seus poderes e é obrigado a viver como humano. Esta terceira linha narrativa funciona como contraponto cómico e filosófico. O anjo que acreditava compreender os humanos percebe, finalmente, que nunca tinha sentido verdadeiramente o peso da vida quotidiana.
É precisamente por isso que Anjo da Sorte se torna interessante. O filme rejeita a moral simplista de que “ricos e pobres sofrem da mesma forma”. Apesar de reconhecer que o sofrimento existe em todas as classes sociais, o realizador insiste que a pobreza acrescenta uma camada permanente de ansiedade, medo e desgaste.
Realizado por Aziz Ansari, Anjo da Sorte conta ainda com a participação de atores como Keke Palmer (Nope ou Alice), Sandra Oh (Anatomia de Grey ou Killing Eve), entre outros.

imagem https://www.imdb.com/ - clicar para aumentar
OPINIÃO
À primeira vista, pode parecer apenas mais uma variação sobre a velha fórmula da troca de corpos ou da inversão de papéis sociais, mas Anjo da Sorte acaba por ser uma comédia mais inteligente do que parece. O realizador recorreu a uma estrutura mais familiar para falar sobre como o sistema económico atual está construído para deixar milhões de pessoas permanentemente cansadas, endividadas e dependentes. Contudo, o grande mérito do filme está em não transformar essa crítica numa lição pesada ou excessivamente moralista optando pelo o humor. E, surpreendentemente, funcionou bem.
Há uma ironia particularmente eficaz no modo como o filme desmonta a ideia de que “o dinheiro não importa”. A própria narrativa parece responder a essa frase com algum sarcasmo. Claro que o dinheiro não compra felicidade absoluta, mas compra estabilidade, tempo, segurança, dignidade e possibilidade de escolha.
No que concerne ao trabalho dos atores, tenho que mencionar Keanu Reeves é, provavelmente, a melhor surpresa do filme. A sua personagem Gabriel é simultaneamente cómica, ingénua e melancólica, sendo interpretado com grande mestria, assente num tom quase infantil, mas nunca ridículo. Há algo genuinamente enternecedor naquele anjo desastrado que quer fazer o bem, mas que não percebe como o mundo funciona.
CONCLUSÃO
Resumindo, Anjo da Sorte revelou ser um filme audaz e ambicioso, mas sobretudo inteligente, sem nunca deixar de lado o tom cómico e jocoso. Uma critica e sátira à forma como o sistema económico está implementado, obrigando a uma reflexão séria sobre o dinheiro, o privilégio e a desigualdade social.


0 comments